"(...) Mas ainda não formulamos a mais séria acusação contra a poesia. O que nela há de mais terrível é a sua capacidade de fazer danos aos homens de real valor, e poucos são os que escapam à essa influência". [PLATÃO, A República]
sábado, 30 de novembro de 2013
a estrada
A Estrada em frente vai seguindo
Deixando a porta onde começa.
Agora longe já vai indo,
Devo seguir, nada me impeça.
Em seu encalço vão meus pés,
Até a junção com a grande estrada,
De muitas sendas através.
Que vem depois? Não sei mais nada.
[-JRRT]
no mais, estou indo embora, baby.
Eu desço dessa solidão, espalho coisas sobre um Chão de Giz. Há meros devaneios tolos a me torturar. Eu vou te jogar num pano de guardar confetes.
Queria usar, quem sabe, uma camisa de força [ou de vênus...]. Mas não vou gozar de nós apenas um cigarro; nem vou lhe beijar, gastando assim o meu batom.
Na lona, vou a nocaute outra vez. Pra sempre fui acorrentado no seu calcanhar. Não vou me sujar fumando apenas um cigarro. Quanto ao pano dos confetes: já passou meu carnaval.
No mais, estou indo embora, baby.
quinta-feira, 28 de novembro de 2013
nesses dias de Chuva
Esses dias de chuva em que, de repente, já não sou mais eu no mundo.
As gotas vão dissolvendo, uma por uma, a maior parte das fronteiras. O limite entre o visível e o indivisível
repente torna-se fluido e é possível enxergar bem mais do que se pudera
outrora. A cortina de água revela tudo, resvala na superfície e lava tudo, e
eis que resta só a essência; essa chuva que impõe tanto o seu lugar, que restringe
o dos outros somente aos em que Ela não estiver.
Eu não concordo com essa
distribuição desigual de lugar; eu pactuo com a chuva. Chuva, chuva; essa chuva
que tanto que me dubita, sobre se devo escrevê-la com letra maiúscula, ou não.
Nesses dias de chuva, eu poderia
pegar o carro e sair andando, devagarzinho, pela orla, enchendo de raiva os
motoristas estressados, correndo apressados atrás de cumprir esse rascunho
mal-feito de vida que nós rabiscamos todos os dias.
Nesses dias de chuva, cappuccino
quentinho com creme e canela, séries bobas no dvd, edredom, e o banho quente no
abraço do seu corpo-aconhego qualquer.
Nesses dias de chuva eu poderia
passar o dia-paraíso inteirinho estudando, sozinha, silenciosamente feliz, em
minha casa. Ou poderia som alto e faxina, enquanto preparo o mais delicioso
almoço de se comer só.
Ou eu poderia deixar de fazer o que estou fazendo
exatamente agora – poemizando, no meu compoetador – e sair por aí sendo feliz
debaixo dela. Debaixo dessa chuva.
Nesses dias de chuva as pessoas
ficam tristes. Retraem-se e encolhem-se com medo sabe-se lá de que, de acabarem
rasgadas em suas cascas de papel. Enquanto eu, pobre de mim, desabrocho como
uma flor-rósea para um jardim de ninguém, em que não haverá contemplação, pois
que estarão todos embiocados dentro de si mesmos.
Esses dias de chuva em que o mundo se tela inteiro de cinza, e a minha alma cisma em sair de casa deliciosamente pintada de batom vermelho.
Esses dias de chuva em que o mundo se tela inteiro de cinza, e a minha alma cisma em sair de casa deliciosamente pintada de batom vermelho.
Ai, essa chuva. Deveriam me
mandar prender pela maneira indecente como eu sou feliz em dias de chuva.
Mas liberdade mesmo, liberdade de
que não se tem notícia nem experiência que o valha, seria abandonar às traças
esse monte de tanto de coisas para fazer no mundo seco aqui de dentro, agora.
Liberdade de que não tem notícia, seria me esconder do mundo aí fora, debaixo desse aguaceiro.
Coisa mais fantástica seria: cobrir a nós dois com esse lençol
imprudente, translúcido; abraçar seu corpo-fogo no afã submerso da magia dessa água, que mais abrasaria nosso foguefeito.
E quanto mais aumenta a chuva,
mais minha excitação cresce.
Esses dias de chuva em que, de repente, é o mundo inteiro [es]correndo ligeiro para dentro de mim. E, obviamente, transbordando...
Ai! Que vontade de largar tudo e
sair correndo, nesses dias de chuva! Deixar tudo, sem olhar para trás e sair
correndo para ser feliz!
Esses dias de chuva em que, de repente, é o mundo inteiro [es]correndo ligeiro para dentro de mim. E, obviamente, transbordando...
Ai que maneira mais obscena essa como eu sou feliz!,
Nesses dias de chuva.
quarta-feira, 27 de novembro de 2013
motivo
Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.
Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.
Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.
Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada.
veio-verde
[para o fênix, que tão convenientemente suscita nos outros a mesma prática.]
Um dia, morri.
No dia em que eu morri
acordei no outro dia mesmo assim.
Não houve sono,
não saí da cama - não havia cama -,
saí e fiquei lá:
eu não estava lá.
Acordei e saí na rua, acordei e estava morta.
No dia em que eu estava morta,
não havia mais nada à frente,
. nem perspectiva,
. nem expectativa,
. nem vida.
Não havia trânsito para aqueles carros,
sequer havia carros,
eu não estava lá.
Havia até mundo,
o mundo no seu devido lugar;
eu não estava lá.
Nesse dia em que não havia luz e sombra
. delineando contrastes,
nem sequer tons de cinza
. sugerindo contornos,
. você veio,
. você-veio,
. e.
d
r
e
e estava vestindo v
o último cigarro
Tomar uma decisão não tem a ver com planos pautados no futuro - o terreno do futuro é incerto demais; ele sequer existe.
Não tem a ver com aguardar o réveillon para cozer promessas, só porque já está no final do ano e isso lá não é época para se começar nada.
Começar algo tem a ver com o Agora.
Tomar uma decisão, iniciar algo, deixar um vício, a atitude,
o agir tem a ver não com começar a dieta na segunda;
mas com não fumar o último cigarro.
[ssa, a vinte e seis de novembro de 2013.]
seja
[essa vai pro lindinho do Latim.]
objeto
de meu mais desesperado desejo
não seja aquilo
por quem ardo e não vejo
seja estrela que me beija
. oriente que me reja
. azul amor beleza
faça qualquer coisa
mas pelo amor de deus
. ou de nós dois
. seja.
florbela ainda considera caminhos
"Longe de ti são ermos os caminhos."
nem mesmo são caminhos:
. estradas-espinho
. veredas-desalinho
nem mesmo são cá
.. são só
. zinho.
[quadrinho por Mayra Gomes,em <<Tirinhas de Mulher>>
https://www.facebook.com/photo.php?fbid=376502865818646&set=a.371766166292316.1073741827.371524856316447&type=1,
acesso a 27 de novembro de 2013.]
terça-feira, 26 de novembro de 2013
cantares do sem nome e de partida - I
[e, antes de dormir, uma oração.]
Que este amor
não me cegue nem me siga.
E de mim mesma nunca se aperceba.
Que me exclua do estar sendo perseguida
E do tormento
De só por ele me saber estar sendo.
Que o olhar não se perca nas tulipas
Pois formas tão perfeitas de beleza
Vêm do fulgor das trevas.
E o meu Senhor habita o rutilante escuro
De um suposto de heras em alto muro.
E de mim mesma nunca se aperceba.
Que me exclua do estar sendo perseguida
E do tormento
De só por ele me saber estar sendo.
Que o olhar não se perca nas tulipas
Pois formas tão perfeitas de beleza
Vêm do fulgor das trevas.
E o meu Senhor habita o rutilante escuro
De um suposto de heras em alto muro.
Que este
amor me faça descontente
E farta de fadigas. E de fragilidades tantas
Eu me faça pequena. E diminuta e tenra
Como só soem ser aranhas e formigas.
E farta de fadigas. E de fragilidades tantas
Eu me faça pequena. E diminuta e tenra
Como só soem ser aranhas e formigas.
Que este
amor só me veja de partida.
[amém.]
dez chamamentos ao Amigo - VIII
[preces para o esquecimento mdc]
De luas, desatino e aguaceiro
Todas as noites que não foram tuas.
Amigos e meninos de ternura
De luas, desatino e aguaceiro
Todas as noites que não foram tuas.
Amigos e meninos de ternura
Intocado meu rosto-pensamento
Intocado meu corpo e tão mais triste
Sempre à procura do teu corpo exato.
Intocado meu corpo e tão mais triste
Sempre à procura do teu corpo exato.
Livra-me de ti. Que eu reconstrua
Meus pequenos amores. A ciência
De me deixar amar
Sem amargura. E que me dêem
Meus pequenos amores. A ciência
De me deixar amar
Sem amargura. E que me dêem
A enorme incoerência
De desamar, amando. E te lembrando
De desamar, amando. E te lembrando
- Fazedor de desgosto -
Que eu te esqueça.
Que eu te esqueça.
a morte absoluta
[para brindar o fim de um Amor.]
Morrer.
Morrer.
Morrer de corpo e de alma.
Completamente.
Morrer sem deixar o triste despojo da carne,
a exangue máscara de cera,
cercada de flores,
que apodrecerão – felizes! – num dia,
banhada de lágrimas
nascidas menos da saudade do que do espanto da morte.
a exangue máscara de cera,
cercada de flores,
que apodrecerão – felizes! – num dia,
banhada de lágrimas
nascidas menos da saudade do que do espanto da morte.
Morrer sem deixar porventura uma alma errante…
A caminho do céu?
Mas que céu pode satisfazer teu sonho de céu?
A caminho do céu?
Mas que céu pode satisfazer teu sonho de céu?
Morrer sem deixar um sulco, um risco, uma sombra,
a lembrança de uma sombra
em nenhum coração, em nenhum pensamento,
em nenhuma epiderme.
a lembrança de uma sombra
em nenhum coração, em nenhum pensamento,
em nenhuma epiderme.
Morrer tão completamente
que um dia ao lerem o teu nome num papel
perguntem: “Quem foi?…”
que um dia ao lerem o teu nome num papel
perguntem: “Quem foi?…”
Morrer mais completamente ainda,
- sem deixar sequer esse nome.
- sem deixar sequer esse nome.
benção
[esse eu dedico a may <3 ]
Apeio o peito sobre a saudade que arde a carne,
Sem consolo possível no solo das desesperanças.
Herdei de meu pai pujanças, bravezas,
E de minha mãe a fragilidade animal das fêmeas.
Por isso tenho tudo!
Posso despregar o afeto como macho cansado faz,
Posso abandonar as armas, trêmulas, porque morro.
Tenho grandes, pequenos e verdes medos,...
Sou mulher de agora, de hoje,
Tenho hábitos de galo e caprichos de galinha.
Falta o dicionário farto em suas doações de doces fonemas,
De raízes, arcaica presença de verbo.
Doarei o dia à paz, ao abandono das preocupações.
Tratarei da poesia, minha parceira de demolições e alvenarias.
Quem me dera só ser, sem bruscas mutações,
Mas o corpo oscila na regularidade do ciclo.
Endoideço alguns dias porque virá a sangria
E entrarei no tempo das penitências,
Fitando meu Deus com acusações humanas.
Sou esse fruto peco das diásporas,
Minha veemência é minha mordaça,
Assim tem sido meus dias de santa, casta, pacata,
Senhora de um Deus-homem.
Desacato porque sorvo substantivos, substâncias,
Essências de nomes, dores, fantasias.
Desacato porque sou poeta.
Tenho língua de fontelas, hildas.
Sou muito brava para donos
E afeita a a clamores de desprotegidos.
Tenho tudo sob meu viaduto-castelo.
Sou rata e rainha.
- Rita Santana
Apeio o peito sobre a saudade que arde a carne,
Sem consolo possível no solo das desesperanças.
Herdei de meu pai pujanças, bravezas,
E de minha mãe a fragilidade animal das fêmeas.
Por isso tenho tudo!
Posso despregar o afeto como macho cansado faz,
Posso abandonar as armas, trêmulas, porque morro.
Tenho grandes, pequenos e verdes medos,...
Sou mulher de agora, de hoje,
Tenho hábitos de galo e caprichos de galinha.
Falta o dicionário farto em suas doações de doces fonemas,
De raízes, arcaica presença de verbo.
Doarei o dia à paz, ao abandono das preocupações.
Tratarei da poesia, minha parceira de demolições e alvenarias.
Quem me dera só ser, sem bruscas mutações,
Mas o corpo oscila na regularidade do ciclo.
Endoideço alguns dias porque virá a sangria
E entrarei no tempo das penitências,
Fitando meu Deus com acusações humanas.
Sou esse fruto peco das diásporas,
Minha veemência é minha mordaça,
Assim tem sido meus dias de santa, casta, pacata,
Senhora de um Deus-homem.
Desacato porque sorvo substantivos, substâncias,
Essências de nomes, dores, fantasias.
Desacato porque sou poeta.
Tenho língua de fontelas, hildas.
Sou muito brava para donos
E afeita a a clamores de desprotegidos.
Tenho tudo sob meu viaduto-castelo.
Sou rata e rainha.
- Rita Santana
domingo, 24 de novembro de 2013
retrato
Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.
Eu não tinha estas mão sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida a minha face?
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida a minha face?
memória
Amar o perdido
deixa confundido
este coração.
Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.
As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão
Mas as coisas findas
muito mais que lindas,
essas ficarão.
[cícero [lindo] lembrou desse
em <<Conversa de Botas Batidas>>]
deixa confundido
este coração.
Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.
As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão
Mas as coisas findas
muito mais que lindas,
essas ficarão.
[cícero [lindo] lembrou desse
em <<Conversa de Botas Batidas>>]
o Amor antigo
O amor antigo vive de si mesmo,
não de cultivo alheio ou de presença.
Nada exige nem pede. Nada espera,
mas do destino vão nega a sentença.
O amor antigo tem raízes fundas,
feitas de sofrimento e de beleza.
Por aquelas mergulha no infinito,
e por estas suplanta a natureza.
Se em toda parte o tempo desmorona
aquilo que foi grande e deslumbrante,
a antigo amor, porém, nunca fenece
e a cada dia surge mais amante.
Mais ardente, mas pobre de esperança.
Mais triste? Não. Ele venceu a dor,
e resplandece no seu canto obscuro,
tanto mais velho quanto mais amor.
não de cultivo alheio ou de presença.
Nada exige nem pede. Nada espera,
mas do destino vão nega a sentença.
O amor antigo tem raízes fundas,
feitas de sofrimento e de beleza.
Por aquelas mergulha no infinito,
e por estas suplanta a natureza.
Se em toda parte o tempo desmorona
aquilo que foi grande e deslumbrante,
a antigo amor, porém, nunca fenece
e a cada dia surge mais amante.
Mais ardente, mas pobre de esperança.
Mais triste? Não. Ele venceu a dor,
e resplandece no seu canto obscuro,
tanto mais velho quanto mais amor.
quinta-feira, 14 de novembro de 2013
elegia
À memória de
Jacinta Garcia Benevides
Minha avó
Jacinta Garcia Benevides
Minha avó
I
Minha primeira lágrima caiu dentro dos teus olhos.
Tive medo de a enxugar: para não saberes que havia caído.
Tive medo de a enxugar: para não saberes que havia caído.
No dia seguinte, estavas imóvel, na tua forma definitiva,
modelada pela noite, pelas estrelas, pelas, minhas mãos.
modelada pela noite, pelas estrelas, pelas, minhas mãos.
Exalava-se de ti o mesmo frio do orvalho; a mesma
claridade da lua.
claridade da lua.
Vi aquele dia levantar-se inutilmente para as tuas
pálpebras, e a voz dos pássaros e das águas correr
-sem que a recolhessem teus ouvidos inertes.
pálpebras, e a voz dos pássaros e das águas correr
-sem que a recolhessem teus ouvidos inertes.
Onde ficou teu outro corpo? Na parede? Nos imóveis?
no teto?
no teto?
Inclinei-me sobre o teu rosto, absoluta, como um espelho,
E tristemente te procurava.
E tristemente te procurava.
Mas também isso foi inútil, como tudo mais.
II
Neste mês, as cigarras cantam
e os trovões caminham por cima da terra,
agarrados ao sol.
Neste mês, ao cair da tarde, a chuva corre pelas montanhas,
e depois a noite é mais clara,
e o canto dos grilos faz palpitar o cheiro molhado do chão.
e os trovões caminham por cima da terra,
agarrados ao sol.
Neste mês, ao cair da tarde, a chuva corre pelas montanhas,
e depois a noite é mais clara,
e o canto dos grilos faz palpitar o cheiro molhado do chão.
Mas tudo é inútil,
porque os teus ouvidos estão como conchas vazias,
e a tua narina imóvel
não recebe mais notícia
do mundo que circula no vento.
porque os teus ouvidos estão como conchas vazias,
e a tua narina imóvel
não recebe mais notícia
do mundo que circula no vento.
Neste mês, sobre as frutas maduras cai o beijo áspero
das vespas...
-e o arrulho dos pássaros encrespa a sombra,
como água que borbulha.
das vespas...
-e o arrulho dos pássaros encrespa a sombra,
como água que borbulha.
Neste mês, abrem-se cravos de perfume profundo e obscuro;
a areia queima, branca e seca.
junto ao mar lampejante;
de cada fronte desce uma lágrima de calor.
a areia queima, branca e seca.
junto ao mar lampejante;
de cada fronte desce uma lágrima de calor.
Mas tudo é inútil,
porque estás encostada à terra fresca,
e os teus olhos não buscam mais lugares
nesta paisagem luminosa,
e as tuas mãos não se arredondam já
para a colheita nem para a carícia.
Neste mês, começa o ano, de novo,
e eu queria abraçar-te.
Mas tudo é inútil:
eu e tu sabemos que é inútil que o ano comece.
porque estás encostada à terra fresca,
e os teus olhos não buscam mais lugares
nesta paisagem luminosa,
e as tuas mãos não se arredondam já
para a colheita nem para a carícia.
Neste mês, começa o ano, de novo,
e eu queria abraçar-te.
Mas tudo é inútil:
eu e tu sabemos que é inútil que o ano comece.
III
Minha tristeza é não poder mostrar-te as nuvens brancas,
e as flores novas como aroma em brasa,
com as coroas crepitantes de abelhas.
e as flores novas como aroma em brasa,
com as coroas crepitantes de abelhas.
Teus olhos sorririam,
agradecendo a Deus o céu e a terra:
eu sentiria teu coração feliz
como um campo onde choveu.
agradecendo a Deus o céu e a terra:
eu sentiria teu coração feliz
como um campo onde choveu.
Minha tristeza é não poder acompanhar contigo
o desenho das pombas voantes,
o destino dos trens pelas montanhas,
e o brilho tênue de cada estrela
brotando à margem do crepúsculo.
o desenho das pombas voantes,
o destino dos trens pelas montanhas,
e o brilho tênue de cada estrela
brotando à margem do crepúsculo.
Tomarias o luar nas tuas mãos,
fortes e simples como as pedras,
e dirias apenas: “Como vem tão clarinho!”
fortes e simples como as pedras,
e dirias apenas: “Como vem tão clarinho!”
E nesse luar das tuas mãos se banharia a minha vida,
sem perturbar sua claridade,
mas também sem diminuir minha tristeza.
sem perturbar sua claridade,
mas também sem diminuir minha tristeza.
IV
Escuto a chuva batendo nas folhas, pingo a pingo.
Mas há um caminho de sol entre as nuvens escuras.
E as cigarras sobre as resinas continuam cantando.
Mas há um caminho de sol entre as nuvens escuras.
E as cigarras sobre as resinas continuam cantando.
Tu percorrias o céu com teus olhos nevoentos,
e calcularias o sol de amanhã,
e a sorte oculta de cada planta.
e calcularias o sol de amanhã,
e a sorte oculta de cada planta.
É amanhã descerias toda coberta de branco,
brilharias à luz como o sal e a cânfora,
tomarias na mão os frutos do limoeiro, tão verdes,
e entre o veludo da vinha, verias armar-se o cristal dos bagos.
brilharias à luz como o sal e a cânfora,
tomarias na mão os frutos do limoeiro, tão verdes,
e entre o veludo da vinha, verias armar-se o cristal dos bagos.
E olharias o sol subindo ao céu com asas de fogo.
Tuas mãos e a terra secariam bruscamente.
Em teu rosto, como no chão,
haveria flores vermelhas abertas.
Tuas mãos e a terra secariam bruscamente.
Em teu rosto, como no chão,
haveria flores vermelhas abertas.
Dentro do teu coração, porém, estavam as fontes frescas,
sussurrando.
E os canteiros viam-te passar
como a nuvem mais branca do dia.
sussurrando.
E os canteiros viam-te passar
como a nuvem mais branca do dia.
V
Um jardineiro desconhecido se ocupará da simetria
desse pequeno mundo em que estás.
desse pequeno mundo em que estás.
Suas mãos vivas caminharão acima das tuas, em descanso,
das tuas que calculavam primaveras e outonos,
fechadas em sementes e escondidos na flor!
das tuas que calculavam primaveras e outonos,
fechadas em sementes e escondidos na flor!
Tua voz sem corpo estará comandando,
entre terra e água,
o aconchego das raízes tenras,
a ordenação das pétalas nascentes.
entre terra e água,
o aconchego das raízes tenras,
a ordenação das pétalas nascentes.
À margem desta pedra que te cerca,
o rosto das flores inclinará sua narrativa:
história dos grandes luares,
crescimento e morte dos campos,
giros e músicas de pássaros,
arabescos de libélulas roxas e verdes.
Conversareis longamente,
em vossa linguagem inviolável.
o rosto das flores inclinará sua narrativa:
história dos grandes luares,
crescimento e morte dos campos,
giros e músicas de pássaros,
arabescos de libélulas roxas e verdes.
Conversareis longamente,
em vossa linguagem inviolável.
Os anjos de mármore ficarão para sempre ouvindo:
que eles também falam em silêncio.
que eles também falam em silêncio.
Mas a mim – se te chamar, se chorar – não me ouvirás
por mais perto que venha, não sou mais que uma sombra
caminhando em redor de uma fortaleza.
por mais perto que venha, não sou mais que uma sombra
caminhando em redor de uma fortaleza.
Queria deixar-te aqui as imagens do mundo que amaste:
o mar com seus peixes e suas barcas;
os pomares com cestos derramados de frutos;
os jardins de malva e trevo, com seus perfumes
brancos e vermelhos.
o mar com seus peixes e suas barcas;
os pomares com cestos derramados de frutos;
os jardins de malva e trevo, com seus perfumes
brancos e vermelhos.
E aquela estrela maior, que a noite levava na mão direita.
E o sorriso de uma alegria que eu não tive,
mas te dava.
E o sorriso de uma alegria que eu não tive,
mas te dava.
VI
Tudo cabe aqui dentro:
vejo tua casa, tuas quintas de fruta,
as mulas deixando descarregarem seirões repletos,
e os cães de nomes antigos
ladrando majestosamente
para a noite aproximada.
vejo tua casa, tuas quintas de fruta,
as mulas deixando descarregarem seirões repletos,
e os cães de nomes antigos
ladrando majestosamente
para a noite aproximada.
Tange a atafona sobre uma cantiga arcaica:
e os fusos ainda vão enrolando o fio
para a camisa, para a toalha, para o lençol.
e os fusos ainda vão enrolando o fio
para a camisa, para a toalha, para o lençol.
Nesse fio vai o campo onde o vento saltou.
Vai o campo onde a noite deixou seu sono orvalhado.
Vai o sol com suas vestimentas de ouro
cavalgando esse imenso gavião do céu.
Vai o campo onde a noite deixou seu sono orvalhado.
Vai o sol com suas vestimentas de ouro
cavalgando esse imenso gavião do céu.
Tudo cabe aqui dentro:
teu corpo era um espelho pensante do universo.
E olhavas para essa imagem, clarividente e comovida.
teu corpo era um espelho pensante do universo.
E olhavas para essa imagem, clarividente e comovida.
Foi do barco das flores, o teu rosto terreno,
e uns líquens de noite sem luzes
se enrolaram em tua cabeça de deusa rústica.
e uns líquens de noite sem luzes
se enrolaram em tua cabeça de deusa rústica.
Mas puseram-te numa praia de onde os barcos saíam
para perderem-se.
Então, teus braços se abriram,
querendo levar-te mais longe:
porque eras a que salvava.
E ficaste com um pouco de asas.
para perderem-se.
Então, teus braços se abriram,
querendo levar-te mais longe:
porque eras a que salvava.
E ficaste com um pouco de asas.
Teus olhos, porém, mediram a flutuação do caminho.
Por isso, tua testa se vincou de alto a baixo,
e tuas pálpebras meigas
se cobriram de cinza.
Por isso, tua testa se vincou de alto a baixo,
e tuas pálpebras meigas
se cobriram de cinza.
VII
O crepúsculo é este sossego do céu
com suas nuvens paralelas
e uma última cor penetrando nas árvores
até os pássaros.
com suas nuvens paralelas
e uma última cor penetrando nas árvores
até os pássaros.
É esta curva dos pombos, rente aos telhados,
este cantar de galos e rolas, muito longe;
e, mais longe, o abrolhar de estrelas brancas,
ainda sem luz.
este cantar de galos e rolas, muito longe;
e, mais longe, o abrolhar de estrelas brancas,
ainda sem luz.
Mas não era só isto, o crepúsculo:
faltam os teus dois braços numa janela, sobre flores,
e em tuas mãos o teu rosto,
aprendendo com as nuvens a sorte das transformações.
faltam os teus dois braços numa janela, sobre flores,
e em tuas mãos o teu rosto,
aprendendo com as nuvens a sorte das transformações.
Faltam teus olhos com ilhas, mares, viagens, povos,
tua boca, onde a passagem da vida
tinha deixado uma doçura triste,
que dispensava palavras.
tua boca, onde a passagem da vida
tinha deixado uma doçura triste,
que dispensava palavras.
Ah, falta o silêncio que estava entre nós,
e olhava a tarde, também.
Nele vivia o teu amor por mim,
obrigatório e secreto.
Igual à face da Natureza:
evidente, e sem definição.
e olhava a tarde, também.
Nele vivia o teu amor por mim,
obrigatório e secreto.
Igual à face da Natureza:
evidente, e sem definição.
Tudo em ti era uma ausência que se demorava:
uma despedida pronta a cumprir-se.
uma despedida pronta a cumprir-se.
Sentindo-o, cobria minhas lágrimas com um riso doido.
Agora, tenho medo que não visses
o que havia por detrás dele.
Agora, tenho medo que não visses
o que havia por detrás dele.
Aqui está meu rosto verdadeiro,
defronte do crepúsculo que não alcançaste
Abre o túmulo, e olha-me:
dize-me qual de nós morreu mais.
defronte do crepúsculo que não alcançaste
Abre o túmulo, e olha-me:
dize-me qual de nós morreu mais.
VIII
Hoje! Hoje de sol e bruma,
com este silencioso calor sobre as pedras e as folhas!
com este silencioso calor sobre as pedras e as folhas!
Hoje! sem cigarras nem pássaros.
Gravemente. Altamente.
Com flores abafadas pelo caminho,
entre essas máscaras de bronze e mármore
eterno rosto da terra.
Gravemente. Altamente.
Com flores abafadas pelo caminho,
entre essas máscaras de bronze e mármore
eterno rosto da terra.
Hoje.
Quanto tempo passou entre a nossa mútua espera!
Tu, paciente e inutilizada,
cantando as horas que te desfaziam.
Meus olhos repetindo essas tuas horas heróicas,
no brotar e morrer desta última primavera
que te enfeitou.
Oh, a montanha de terra que agora vão tirando do teu peito!
Tu, paciente e inutilizada,
cantando as horas que te desfaziam.
Meus olhos repetindo essas tuas horas heróicas,
no brotar e morrer desta última primavera
que te enfeitou.
Oh, a montanha de terra que agora vão tirando do teu peito!
Alegra-te, que aqui estou,
fiel, neste encontro,
como se do modo antigo vivesses
ou pudesses, com a minha chegada, reviver.
fiel, neste encontro,
como se do modo antigo vivesses
ou pudesses, com a minha chegada, reviver.
Alegra-te, que já se desprendem em tábuas que te fecharam,
como se desprendeu o corpo
em que aprendeste longamente a sofrer.
como se desprendeu o corpo
em que aprendeste longamente a sofrer.
E, como o áspero ruído da pá cessou neste instante,
ouve o amplo e difuso rumor da cidade em que continuo,
-tu, que resides no tempo, no tempo unânime!
ouve o amplo e difuso rumor da cidade em que continuo,
-tu, que resides no tempo, no tempo unânime!
Ouve-o e relembra
não as estampas humanas: mas as cores do céu e da terra,
o calor do sol,
a aceitação das nuvens,
o grato deslizar das águas dóceis,
tudo o que amamos juntas.
Tudo em que me dispersei como te dispersaste.
E mais esse perfume de eternidade,
intocável e secreto,
que o giro do universo não perturba.
não as estampas humanas: mas as cores do céu e da terra,
o calor do sol,
a aceitação das nuvens,
o grato deslizar das águas dóceis,
tudo o que amamos juntas.
Tudo em que me dispersei como te dispersaste.
E mais esse perfume de eternidade,
intocável e secreto,
que o giro do universo não perturba.
Apenas, não podemos correr, agora,
uma para a outra.
uma para a outra.
Não sofras, por não te poderes levantar
do abismo em que te reclinas:
não sofras, também,
se um pouco de choro se debruça nos meus olhos,
procurando-te.
do abismo em que te reclinas:
não sofras, também,
se um pouco de choro se debruça nos meus olhos,
procurando-te.
Não te importes que escute cair,
no zinco desta humilde caixa,
teu crânio, tuas vértebras,
teus ossos todos, um por um...
no zinco desta humilde caixa,
teu crânio, tuas vértebras,
teus ossos todos, um por um...
Pés que caminhavam comigo,
mãos que me iam levando,
peito do antigo sono,
cabeça do olhar e do sorriso...
mãos que me iam levando,
peito do antigo sono,
cabeça do olhar e do sorriso...
Não te importes. Não te importes...
Na verdade, tu vens como eu te queria inventar:
e de braço dado desceremos por entre pedras e flores.
Posso levar-te ao colo, também,
pois na verdade estás mais leve que uma criança.
e de braço dado desceremos por entre pedras e flores.
Posso levar-te ao colo, também,
pois na verdade estás mais leve que uma criança.
- Tanta terra deixaste porém sobre o meu peito!
irás dizendo, sem queixa,
apenas como recordação.
irás dizendo, sem queixa,
apenas como recordação.
E eu, como recordação, te direi:
- Pesaria tanto quanto o coração que tiveste,
o coração que herdei?
- Pesaria tanto quanto o coração que tiveste,
o coração que herdei?
Ah, mas que palavras podem os vivos dizer aos mortos?
E hoje era o teu dia de festa
Meu presente é buscar-te:
Não para vires comigo:
para te encontrares com os que, antes de mim,
vieste buscar, outrora.
Com menos palavras, apenas.
Com o mesmo número de lágrimas.
Foi lição tua chorar pouco,
para sofrer mais.
Meu presente é buscar-te:
Não para vires comigo:
para te encontrares com os que, antes de mim,
vieste buscar, outrora.
Com menos palavras, apenas.
Com o mesmo número de lágrimas.
Foi lição tua chorar pouco,
para sofrer mais.
Aprendi-a demasiadamente.
Aqui estamos, hoje.
Com este dia grave, de sol velado.
De calor silencioso.
Todas as estátuas ardendo.
As folhas, sem um tremor.
Aqui estamos, hoje.
Com este dia grave, de sol velado.
De calor silencioso.
Todas as estátuas ardendo.
As folhas, sem um tremor.
Não tens fala, nem movimento nem corpo.
E eu te reconheço.
E eu te reconheço.
Ah, mas a mim, a mim.
Quem sabe se me poderás reconhecer!
Quem sabe se me poderás reconhecer!
quarta-feira, 13 de novembro de 2013
sábado, 9 de novembro de 2013
não se mate
Não se mate
Carlos, sossegue, o amor
é isso que você está vendo:
hoje beija, amanhã não beija,
depois de amanhã é domingo
e segunda-feira ninguém sabe
o que será.
Inútil você resistir
ou mesmo suicidar-se.
Não se mate, oh não se mate,
Reserve-se todo para
as bodas que ninguém sabe
quando virão,
se é que virão.
O amor, Carlos, você telúrico,
a noite passou em você,
e os recalques se sublimando,
lá dentro um barulho inefável,
rezas,
vitrolas,
santos que se persignam,
anúncios do melhor sabão,
barulho que ninguém sabe
de quê, praquê.
Entretanto você caminha
melancólico e vertical.
Você é a palmeira, você é o grito
que ninguém ouviu no teatro
e as luzes todas se apagam.
O amor no escuro, não, no claro,
é sempre triste, meu filho, Carlos,
mas não diga nada a ninguém,
ninguém sabe nem saberá.
Não se mate.
Carlos, sossegue, o amor
é isso que você está vendo:
hoje beija, amanhã não beija,
depois de amanhã é domingo
e segunda-feira ninguém sabe
o que será.
Inútil você resistir
ou mesmo suicidar-se.
Não se mate, oh não se mate,
Reserve-se todo para
as bodas que ninguém sabe
quando virão,
se é que virão.
O amor, Carlos, você telúrico,
a noite passou em você,
e os recalques se sublimando,
lá dentro um barulho inefável,
rezas,
vitrolas,
santos que se persignam,
anúncios do melhor sabão,
barulho que ninguém sabe
de quê, praquê.
Entretanto você caminha
melancólico e vertical.
Você é a palmeira, você é o grito
que ninguém ouviu no teatro
e as luzes todas se apagam.
O amor no escuro, não, no claro,
é sempre triste, meu filho, Carlos,
mas não diga nada a ninguém,
ninguém sabe nem saberá.
Não se mate.
o menino que carregava água na peneira
[para João, o Pequeno Príncipe <3 ]
Tenho um livro sobre águas e meninos.
Gostei mais de um menino
que carregava água na peneira.
A mãe disse que carregar água na peneira
era o mesmo que roubar um vento e
A mãe disse que era o mesmo
que catar espinhos na água.
O menino era ligado em despropósitos.
Quis montar os alicerces
de uma casa sobre orvalhos.
A mãe reparou que o menino
Com o tempo aquele menino
que era cismado e esquisito
porque gostava de carregar água na peneira.
Com o tempo descobriu que
escrever seria o mesmo
O menino aprendeu a usar as palavras.
Viu que podia fazer peraltagens com as palavras.
E começou a fazer peraltagens.
Foi capaz de interromper
Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela.
O menino fazia prodígios.
Até fez uma pedra dar flor.
A mãe reparava o menino com ternura.
A mãe falou: Meu filho você vai ser poeta!
Você vai carregar água na peneira a vida toda.
Você vai encher os vazios
Tenho um livro sobre águas e meninos.
Gostei mais de um menino
que carregava água na peneira.
A mãe disse que carregar água na peneira
era o mesmo que roubar um vento e
sair correndo com ele para mostrar aos irmãos.
A mãe disse que era o mesmo
que catar espinhos na água.
O mesmo que criar peixes no bolso.
O menino era ligado em despropósitos.
Quis montar os alicerces
de uma casa sobre orvalhos.
A mãe reparou que o menino
gostava mais do vazio do que do cheio.
Falava que os vazios são maiores e até infinitos.
Falava que os vazios são maiores e até infinitos.
Com o tempo aquele menino
que era cismado e esquisito
porque gostava de carregar água na peneira.
Com o tempo descobriu que
escrever seria o mesmo
que carregar água na peneira.
No escrever o menino viu
que era capaz de ser noviça,
que era capaz de ser noviça,
monge ou mendigo ao mesmo tempo.
O menino aprendeu a usar as palavras.
Viu que podia fazer peraltagens com as palavras.
E começou a fazer peraltagens.
Foi capaz de interromper
o vôo de um pássaro
botando ponto final na frase.
botando ponto final na frase.
Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela.
O menino fazia prodígios.
Até fez uma pedra dar flor.
A mãe reparava o menino com ternura.
A mãe falou: Meu filho você vai ser poeta!
Você vai carregar água na peneira a vida toda.
Você vai encher os vazios
com as suas peraltagens
e algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos.
e algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos.
o bicho
Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.
Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.
O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.
O bicho, meu Deus, era um homem.
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.
Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.
O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.
O bicho, meu Deus, era um homem.
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