quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

sensation


[um brinde à 2014!]


Par les soirs bleus d'été, j'irai dans les sentiers,
Picoté par les blés, fouler l'herbe menue :
Rêveur, j'en sentirai la fraîcheur à mes pieds.
Je laisserai le vent baigner ma tête nue.

Je ne parlerai pas, je ne penserai rien:
Mais l'amour infini me montera dans l'âme,
Et j'irai loin, bien loin, comme un bohémien,
Par la nature, heureux comme avec une femme























[Sensação 

Pelas tardes azuis do verão, irei pelas sendas,
Guarnecidas pelo trigal, pisando a erva miúda:
Sonhador, sentirei a frescura em meus pés.
Deixarei o vento banhar minha cabeça nua.

Não falarei mais, não pensarei mais:
Mas um amor infinito me invadirá a alma.
E irei longe, bem longe, como um boêmio,
Pela natureza, - feliz como com uma mulher.] 

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

domingo, 15 de dezembro de 2013

dicas para tirar manchas de mágoa das roupas



1. Aja imediatamente. Quanto mais rápido você agir, melhores são as chances de remover a mancha.
2. Limpe o excesso. Tente secar o máximo que puder do líquido com um pano limpo ou papel-toalha. Retire partes sólidas com uma faca.
3. Não deixe que a mancha seque. Se não puder removê-la de imediato, limpe-a com uma esponja embebida em água fria, borrife água com gás ou cubra-a com uma toalha umedecida.
4. Lubrifique manchas secas. Se a mancha secou (ou você encontrou uma antiga), esfregue glicerina vegetal nela antes de removê-la.
5. Não use água quente, que “fixa” muitas manchas, tornando-as difíceis de remover. Use água fria ou morna na mancha da primeira vez.
6. Comece com o método mais suave. Muitas vezes, para remover uma mancha, basta água com gás ou uma solução com sabão.
7. Os movimentos são sempre de fora para dentro. Para evitar deixar uma marca circular, comece da borda externa da mancha e trabalhe em direção ao centro.
8. Não esfregue a mancha. Em vez disso, coloque um forro/tecido absorvente embaixo dela e embeba-o com a solução removedora. Certifique-se de trocar o absorvente com freqüência.

9. Trabalhe do avesso do tecido. Se possível, coloque o absorvente na mancha do lado direito do tecido e aplique o removedor pelo avesso.

10. Mais não é necessariamente melhor. Se um limpador não estiver dando certo, não aumente a potência da solução. Enxágüe e experimente outra coisa.


cantos dos insetos


Mas quem sabe onde cabe o
 amor que se faz?
É sua a sua demora.
Não quero você, nem ninguém, se não for agora.
Deixa o mar varrer, deixa cicatrizar meu nome.
Se você vier, vamos recomeçar por onde?
Deixa estar como está, este é o nosso lugar, mesmo quando não há um onde.

Deixa o mar varrer, deixa cicatrizar meu nome.


[wado]

sábado, 14 de dezembro de 2013

psicologia da composição

I

Saio de meu poema
como quem lava as mãos.

Algumas conchas tornaram-se,
que o sol da atenção
cristalizou; alguma palavra
que desabrochei, como a um pássaro.

Talvez alguma concha
dessas (ou pássaro) lembre,
côncava, o corpo do gesto
extinto que o ar já preencheu;

talvez, como a camisa
vazia, que despi.

sobre outra faceta do mesmo começo


[esse antigo para blue.]


Conhecemo-nos despretensiosamente, tratou-me sempre de forma cortês e educada. Cortejou-me na hora certa, com galanteios respeitosos, convidou-me para sair.

Chegou antes da hora marcada, esperou-me na porta do prédio. Sorriu ao ver-me, disse “você está linda” antes mesmo de dizer “boa noite”. Beijou apenas minha mão, presenteou-me com uma rosa. Abriu a porta do carro para eu entrar.

Dirigiu sem pressa, pôs para tocar baixinho uma boa rádio nacional. Disse-me “aguarde aqui” quando estacionou e abriu a porta do carro para que eu saísse. Ofereceu-me a mão enquanto eu descia. Abriu a porta do restaurante e me deixou entrar primeiro.

Puxou a cadeira para que eu me sentasse, me falou sobre as opções do menu no interesse de saber o que me agradaria jantar. Sugeriu um bom vinho e, quando o métre trouxe, dispensou-o, abriu a garrafa e nos serviu.

Perguntou-me “concede-me a contra-dança?”, e conduziu-me suavemente pela pista. Aplaudiu a banda, quando a música que dançávamos acabou. Ofereceu o braço para me levar de volta à mesa.

Serviu-me primeiro em tudo, tratou todos com muita educação. Falou de cinema, política, espiritualidade, futebol e desenhos animados. Pagou a conta, puxou a cadeira para que eu me levantasse, abriu a porta do restaurante e do carro.

Parou na frente do prédio. Recusou educadamente meu convite para subir, para mais um drink. Abriu a porta do carro e do prédio, beijou minha mão novamente, com um elegante “foi uma noite maravilhosa”, e foi embora. Olhou-me bem dentro dos olhos o tempo inteiro.

No dia seguinte, despertei com a campainha. Eram flores e uma caixa de bombons. No cartão, um bilhete que dizia “ainda não acredito na minha sorte”.

E eu, será que acredito na minha?



despertador



andava tentando
acordar nós
e ser doce antes
de entardecer

mas você tocou
o despertador
e já não podemos
adormecer



amor errado



Eu pensei que pudesse esquecer um amor errado indo embora de casa, cortando o cabelo, escrevendo cartas. Eu sonhei que o tempo bastaria. Que nunca mais quando fosse noite viria o rosto, o volume dos ombros, o cheiro de pescoço encostado... 


Acreditei em poder suportar certas misérias, deitada sozinha. Não percebi que o amor estava confundido às ferragens da alma!... Ele vem atrás, ele vem atrás até quando estamos dormindo...


Eu pensei que ele aceitasse ser abandonado, mas percebi que fica enroscado nos tornozelos da gente, rosnando baixinho, para ser ouvido até mesmo debaixo de chuva.


Eu pensei que pudesse esquecer um amor errado debaixo de chuva...




no corpo


[carpe dien; carpe carmine.]



De que vale tentar reconstituir com palavras
O que o verão levou
Entre nuvens e risos
Junto com o jornal velho pelos ares?
O sonho na boca, o incêndio na cama,
o apelo da noite
Agora são apenas esta
contração (este clarão)
do maxilar dentro do rosto.
A poesia é o presente.




os poemas são pássaros


Os poemas são pássaros que chegam
não se sabe de onde e pousam
nos livros que lês.
Quando fechas o livro, eles alçam vôo
como de um alçapão.
Eles não têm pouso
nem porto
alimentam-se um instante em cada par de mãos
e partem.
E olhas, então, essas tuas mãos vazias,
no maravilhoso espanto de saberes
que o alimento deles já estava em ti...


poesia



Gastei uma hora pensando em um  verso
que a pena não quer escrever.
No entanto ele está cá dentro
inquieto, vivo.
Ele está cá dentro
e não quer sair.
Mas a poesia deste momento
inunda minha vida inteira.


sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

sexta-feira treze



meus trevos todos têm
                                    três folhas.

a quarta folha
                       dos meus trevos de três folhas


                                            sou eu.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Gerais

[quando a Saudade das Gerais é tanta,
que eu acho que não vai mais caber no peito.]




Minas não é palavra montanhosa

É palavra abissal. Minas é dentro
e fundo.


As montanhas escondem o que é Minas.
No alto mais celeste, subterrânea,
é galeria vertical varando o ferro
para chegar ninguém sabe onde.

Ninguém sabe Minas. A pedra

o buriti
a carranca
o nevoeiro
o raio
selam a verdade primeira, sepultada
em eras geológicas de sonho.


Só mineiros sabem. 
E não dizem
nem a si mesmos o 
irrevelável segredo chamado Minas
.



poemia para cinco

[[ou seis]]

[para o fênix.]




[traçando entre nós um pequeno texto
para diminuir a distância entre intenção e gesto.]

Quereria somente da noite escura
cessar a procura antes do previsto.
Da porta teus olhos uma abertura,
mínima fresta faísca fissura,
pista precisa para o meu manifesto.

Sendo você quisto e me tendo em vista,
não houvesse nenhum protesto,
lhe diria em resposta doçura
e se você quisesse à altura,
eis que seria o nosso contexto.

A leitura do então encontro [im]previsto
-costura sem jura, serena conquista-,
um nosso presente hedonista:
brandura, cura, Presença, Festa.

          Seríamos ternura que resta
          sem importar o contesto do resto.

[traçando entre nós um pequeno texto
para diminuir a distância entre intenção e gesto.]



oceano dos lençóis


[para o fênix, para quando - pois que ai! que vontade de.] 




não possa tanta distância
deixar entre nós
esse sol que põe
entre uma onda
e outra onda
no oceano dos lençóis





segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

dor elegante

Um homem com uma dor
É muito mais elegante
Caminha assim de lado
Com se chegando atrasado
Chegasse mais adiante

Carrega o peso da dor
Como se portasse medalhas
Uma coroa, um milhão de dólares
Ou coisa que os valha

Ópios, édens, analgésicos
Não me toquem nesse dor
Ela é tudo o que me sobra
Sofrer vai ser a minha última obra

já me matei faz muito tempo

Já me matei faz muito tempo
Me matei quando o tempo era escasso
E o que havia entre o tempo e o espaço
Era o de sempre
Nunca mesmo o sempre passo

Morrer faz bem á vista e ao baço
Melhora o ritmo do pulso
E clareia a alma

Morrer de vez em quando
É a única coisa que me acalma

sábado, 30 de novembro de 2013

a estrada



A Estrada em frente vai seguindo


Deixando a porta onde começa.

Agora longe já vai indo,

Devo seguir, nada me impeça.

     Em seu encalço vão meus pés,

     Até a junção com a grande estrada,

     De muitas sendas através.

     Que vem depois? Não sei mais nada.



[-JRRT]

no mais, estou indo embora, baby.


Eu desço dessa solidão, espalho coisas sobre um Chão de Giz. Há meros devaneios tolos a me torturar. Eu vou te jogar num pano de guardar confetes.

Queria usar, quem sabe, uma camisa de força [ou de vênus...]. Mas não vou gozar de nós apenas um cigarro; nem vou lhe beijar, gastando assim o meu batom.

Na lona, vou a nocaute outra vez. Pra sempre fui acorrentado no seu calcanhar. Não vou me sujar fumando apenas um cigarro. Quanto ao pano dos confetes: já passou meu carnaval.


No mais, estou indo embora, baby.

[ .]


quinta-feira, 28 de novembro de 2013

nesses dias de Chuva


Esses dias de chuva em que, de repente, já não sou mais eu no mundo.

As gotas vão dissolvendo, uma por uma, a maior parte das fronteiras. O limite entre o visível e o indivisível repente torna-se fluido e é possível enxergar bem mais do que se pudera outrora. A cortina de água revela tudo, resvala na superfície e lava tudo, e eis que resta só a essência; essa chuva que impõe tanto o seu lugar, que restringe o dos outros somente aos em que Ela não estiver.

Eu não concordo com essa distribuição desigual de lugar; eu pactuo com a chuva. Chuva, chuva; essa chuva que tanto que me dubita, sobre se devo escrevê-la com letra maiúscula, ou não.

Nesses dias de chuva, eu poderia pegar o carro e sair andando, devagarzinho, pela orla, enchendo de raiva os motoristas estressados, correndo apressados atrás de cumprir esse rascunho mal-feito de vida que nós rabiscamos todos os dias.

Nesses dias de chuva, cappuccino quentinho com creme e canela, séries bobas no dvd, edredom, e o banho quente no abraço do seu corpo-aconhego qualquer.

Nesses dias de chuva eu poderia passar o dia-paraíso inteirinho estudando, sozinha, silenciosamente feliz, em minha casa. Ou poderia som alto e faxina, enquanto preparo o mais delicioso almoço de se comer só.

Ou eu poderia deixar de fazer o que estou fazendo exatamente agora – poemizando, no meu compoetador – e sair por aí sendo feliz debaixo dela. Debaixo dessa chuva.

Nesses dias de chuva as pessoas ficam tristes. Retraem-se e encolhem-se com medo sabe-se lá de que, de acabarem rasgadas em suas cascas de papel. Enquanto eu, pobre de mim, desabrocho como uma flor-rósea para um jardim de ninguém, em que não haverá contemplação, pois que estarão todos embiocados dentro de si mesmos.

Esses dias de chuva em que o mundo se tela inteiro de cinza, e a minha alma cisma em sair de casa deliciosamente pintada de batom vermelho.

Ai, essa chuva. Deveriam me mandar prender pela maneira indecente como eu sou feliz em dias de chuva.

Mas liberdade mesmo, liberdade de que não se tem notícia nem experiência que o valha, seria abandonar às traças esse monte de tanto de coisas para fazer no mundo seco aqui de dentro, agora. Liberdade de que não tem notícia, seria me esconder do mundo aí fora, debaixo desse aguaceiro. Coisa mais fantástica seria: cobrir a nós dois com esse lençol imprudente, translúcido; abraçar seu corpo-fogo no afã submerso da magia dessa água, que mais abrasaria nosso foguefeito.

E quanto mais aumenta a chuva, mais minha excitação cresce.

Esses dias de chuva em que, de repente, é o mundo inteiro [es]correndo ligeiro para dentro de mim. E, obviamente, transbordando...

Ai! Que vontade de largar tudo e sair correndo, nesses dias de chuva! Deixar tudo, sem olhar para trás e sair correndo para ser feliz!

Ai que maneira mais obscena essa como eu sou feliz!,

Nesses dias de chuva.

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

motivo


Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada.



veio-verde


[para o fênix, que tão convenientemente suscita nos outros a mesma prática.]




Um dia, morri.

No dia em que eu morri
acordei no outro dia mesmo assim.

Não houve sono,
não saí da cama - não havia cama -,
saí e fiquei lá:
eu não estava lá.

Acordei e saí na rua, acordei e estava morta.

No dia em que eu estava morta,
não havia mais nada à frente,
.                      nem perspectiva,
.                      nem expectativa,
.                      nem vida.

Não havia trânsito para aqueles carros,
sequer havia carros,
eu não estava lá.

Havia até mundo,
o mundo no seu devido lugar;
eu não estava lá.



Nesse dia em que não havia luz e sombra
.                                                           delineando contrastes,
nem sequer tons de cinza
 .                                   sugerindo contornos,



.                                                                       você veio,
.                                                        você-veio,
.                                                                                                               e.  
                                                                                                            d
                                                                                                        r
                                                                                                   e
                                                                     
e estava vestindo v   

o último cigarro


Tomar uma decisão não tem a ver com planos pautados no futuro - o terreno do futuro é incerto demais; ele sequer existe.

Não tem a ver com aguardar o réveillon para cozer promessas, só porque já está no final do ano e isso lá não é época para se começar nada.

Começar algo tem a ver com o Agora.

Tomar uma decisão, iniciar algo, deixar um vício, a atitude,
o agir tem a ver não com começar a dieta na segunda;


mas com não fumar o último cigarro.



[ssa, a vinte e seis de novembro de 2013.]

seja


[essa vai pro lindinho do Latim.]


objeto
de meu mais desesperado desejo
não seja aquilo
por quem ardo e não vejo

seja estrela que me beija
      oriente que me reja
      azul amor beleza

faça qualquer coisa
mas pelo amor de deus
                       ou de nós dois

.                                                    seja.

florbela ainda considera caminhos


"Longe de ti são ermos os caminhos."

nem mesmo são caminhos:
.                        estradas-espinho
.                        veredas-desalinho

nem mesmo são cá
..                 são só
                           zinho.
















[quadrinho por Mayra Gomes,em <<Tirinhas de Mulher>>
https://www.facebook.com/photo.php?fbid=376502865818646&set=a.371766166292316.1073741827.371524856316447&type=1,
acesso a 27 de novembro de 2013.]

terça-feira, 26 de novembro de 2013

cantares do sem nome e de partida - I

[e, antes de dormir, uma oração.]



Que este amor não me cegue nem me siga.
E de mim mesma nunca se aperceba.
Que me exclua do estar sendo perseguida
E do tormento
De só por ele me saber estar sendo.
Que o olhar não se perca nas tulipas
Pois formas tão perfeitas de beleza
Vêm do fulgor das trevas.
E o meu Senhor habita o rutilante escuro
De um suposto de heras em alto muro.

Que este amor me faça descontente
E farta de fadigas. E de fragilidades tantas
Eu me faça pequena. E diminuta e tenra
Como só soem ser aranhas e formigas.

Que este amor só me veja de partida.



[amém.]

dez chamamentos ao Amigo - VIII

[preces para o esquecimento mdc]


De luas, desatino e aguaceiro
Todas as noites que não foram tuas.
Amigos e meninos de ternura

Intocado meu rosto-pensamento
Intocado meu corpo e tão mais triste
Sempre à procura do teu corpo exato.

Livra-me de ti. Que eu reconstrua
Meus pequenos amores. A ciência
De me deixar amar
Sem amargura. E que me dêem

A enorme incoerência
De desamar, amando. E te lembrando

- Fazedor de desgosto -
Que eu te esqueça.



Lua alta


Hoje à noite 

Lua alta
Faltei 
E ninguém sentiu 
A minha falta 


[minski]




a morte absoluta

[para brindar o fim de um Amor.]


Morrer.
Morrer de corpo e de alma.
Completamente.
Morrer sem deixar o triste despojo da carne,
a exangue máscara de cera,
cercada de flores,
que apodrecerão – felizes! – num dia,
banhada de lágrimas
nascidas menos da saudade do que do espanto da morte.
Morrer sem deixar porventura uma alma errante…
A caminho do céu?
Mas que céu pode satisfazer teu sonho de céu?
Morrer sem deixar um sulco, um risco, uma sombra,
a lembrança de uma sombra
em nenhum coração, em nenhum pensamento,
em nenhuma epiderme.
Morrer tão completamente
que um dia ao lerem o teu nome num papel
perguntem: “Quem foi?…”
Morrer mais completamente ainda,
- sem deixar sequer esse nome.

benção

[esse eu dedico a may <3 ]


Apeio o peito sobre a saudade que arde a carne,
Sem consolo possível no solo das desesperanças.
Herdei de meu pai pujanças, bravezas,
E de minha mãe a fragilidade animal das fêmeas.
Por isso tenho tudo!
Posso despregar o afeto como macho cansado faz,
Posso abandonar as armas, trêmulas, porque morro.
Tenho grandes, pequenos e verdes medos,...
Sou mulher de agora, de hoje,
Tenho hábitos de galo e caprichos de galinha.
Falta o dicionário farto em suas doações de doces fonemas,
De raízes, arcaica presença de verbo.
Doarei o dia à paz, ao abandono das preocupações.
Tratarei da poesia, minha parceira de demolições e alvenarias.
Quem me dera só ser, sem bruscas mutações,
Mas o corpo oscila na regularidade do ciclo.
Endoideço alguns dias porque virá a sangria
E entrarei no tempo das penitências,
Fitando meu Deus com acusações humanas.
Sou esse fruto peco das diásporas,
Minha veemência é minha mordaça,
Assim tem sido meus dias de santa, casta, pacata,
Senhora de um Deus-homem.
Desacato porque sorvo substantivos, substâncias,
Essências de nomes, dores, fantasias.
Desacato porque sou poeta.
Tenho língua de fontelas, hildas.
Sou muito brava para donos
E afeita a a clamores de desprotegidos.
Tenho tudo sob meu viaduto-castelo.
Sou rata e rainha.


- Rita Santana

domingo, 24 de novembro de 2013

retrato

Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mão sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida a minha face?

tua porta

Lua morta
rua torta
tua porta.

[cassiano ricardo]


memória

Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão

Mas as coisas findas
muito mais que lindas,
essas ficarão.


[cícero [lindo] lembrou desse
em <<Conversa de Botas Batidas>>]

o Amor antigo

O amor antigo vive de si mesmo, 
não de cultivo alheio ou de presença.
Nada exige nem pede. Nada espera,
mas do destino vão nega a sentença.

O amor antigo tem raízes fundas,
feitas de sofrimento e de beleza.
Por aquelas mergulha no infinito,
e por estas suplanta a natureza.

Se em toda parte o tempo desmorona
aquilo que foi grande e deslumbrante,
a antigo amor, porém, nunca fenece
e a cada dia surge mais amante.

Mais ardente, mas pobre de esperança.
Mais triste? Não. Ele venceu a dor,
e resplandece no seu canto obscuro,
tanto mais velho quanto mais amor.

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

elegia

À memória de
Jacinta Garcia Benevides
Minha avó


I
Minha primeira lágrima caiu dentro dos teus olhos.
Tive medo de a enxugar: para não saberes que havia caído.

No dia seguinte, estavas imóvel, na tua forma definitiva,
modelada pela noite, pelas estrelas, pelas, minhas mãos.

Exalava-se de ti o mesmo frio do orvalho; a mesma
claridade da lua.

Vi aquele dia levantar-se inutilmente para as tuas
pálpebras, e a voz dos pássaros e das águas correr
-sem que a recolhessem teus ouvidos inertes.

Onde ficou teu outro corpo? Na parede? Nos imóveis?
no teto?

Inclinei-me sobre o teu rosto, absoluta, como um espelho,
E tristemente te procurava.

Mas também isso foi inútil, como tudo mais.


II
Neste mês, as cigarras cantam
e os trovões caminham por cima da terra,
agarrados ao sol.
Neste mês, ao cair da tarde, a chuva corre pelas montanhas,
e depois a noite é mais clara,
e o canto dos grilos faz palpitar o cheiro molhado do chão.

Mas tudo é inútil,
porque os teus ouvidos estão como conchas vazias,
e a tua narina imóvel
não recebe mais notícia
do mundo que circula no vento.

Neste mês, sobre as frutas maduras cai o beijo áspero
das vespas...
-e o arrulho dos pássaros encrespa a sombra,
como água que borbulha.

Neste mês, abrem-se cravos de perfume profundo e obscuro;
a areia queima, branca e seca.
junto ao mar lampejante;
de cada fronte desce uma lágrima de calor.

Mas tudo é inútil,
porque estás encostada à terra fresca,
e os teus olhos não buscam mais lugares
nesta paisagem luminosa,
e as tuas mãos não se arredondam já
para a colheita nem para a carícia.
Neste mês, começa o ano, de novo,
e eu queria abraçar-te.
Mas tudo é inútil:
eu e tu sabemos que é inútil que o ano comece.


III
Minha tristeza é não poder mostrar-te as nuvens brancas,
e as flores novas como aroma em brasa,
com as coroas crepitantes de abelhas.

Teus olhos sorririam,
agradecendo a Deus o céu e a terra:
eu sentiria teu coração feliz
como um campo onde choveu.

Minha tristeza é não poder acompanhar contigo
o desenho das pombas voantes,
o destino dos trens pelas montanhas,
e o brilho tênue de cada estrela
brotando à margem do crepúsculo.

Tomarias o luar nas tuas mãos,
fortes e simples como as pedras,
e dirias apenas: “Como vem tão clarinho!”

E nesse luar das tuas mãos se banharia a minha vida,
sem perturbar sua claridade,
mas também sem diminuir minha tristeza.


IV
Escuto a chuva batendo nas folhas, pingo a pingo.
Mas há um caminho de sol entre as nuvens escuras.
E as cigarras sobre as resinas continuam cantando.

Tu percorrias o céu com teus olhos nevoentos,
e calcularias o sol de amanhã,
e a sorte oculta de cada planta.

É amanhã descerias toda coberta de branco,
brilharias à luz como o sal e a cânfora,
tomarias na mão os frutos do limoeiro, tão verdes,
e entre o veludo da vinha, verias armar-se o cristal dos bagos.

E olharias o sol subindo ao céu com asas de fogo.
Tuas mãos e a terra secariam bruscamente.
Em teu rosto, como no chão,
haveria flores vermelhas abertas.

Dentro do teu coração, porém, estavam as fontes frescas,
sussurrando.
E os canteiros viam-te passar
como a nuvem mais branca do dia.


V
Um jardineiro desconhecido se ocupará da simetria
desse pequeno mundo em que estás.

Suas mãos vivas caminharão acima das tuas, em descanso,
das tuas que calculavam primaveras e outonos,
fechadas em sementes e escondidos na flor!

Tua voz sem corpo estará comandando,
entre terra e água,
o aconchego das raízes tenras,
a ordenação das pétalas nascentes.

À margem desta pedra que te cerca,
o rosto das flores inclinará sua narrativa:
história dos grandes luares,
crescimento e morte dos campos,
giros e músicas de pássaros,
arabescos de libélulas roxas e verdes.
Conversareis longamente,
em vossa linguagem inviolável.

Os anjos de mármore ficarão para sempre ouvindo:
que eles também falam em silêncio.

Mas a mim – se te chamar, se chorar – não me ouvirás
por mais perto que venha, não sou mais que uma sombra
caminhando em redor de uma fortaleza.

Queria deixar-te aqui as imagens do mundo que amaste:
o mar com seus peixes e suas barcas;
os pomares com cestos derramados de frutos;
os jardins de malva e trevo, com seus perfumes
brancos e vermelhos.

E aquela estrela maior, que a noite levava na mão direita.
E o sorriso de uma alegria que eu não tive,
mas te dava.


VI
Tudo cabe aqui dentro:
vejo tua casa, tuas quintas de fruta,
as mulas deixando descarregarem seirões repletos,
e os cães de nomes antigos
ladrando majestosamente
para a noite aproximada.

Tange a atafona sobre uma cantiga arcaica:
e os fusos ainda vão enrolando o fio
para a camisa, para a toalha, para o lençol.

Nesse fio vai o campo onde o vento saltou.
Vai o campo onde a noite deixou seu sono orvalhado.
Vai o sol com suas vestimentas de ouro
cavalgando esse imenso gavião do céu.

Tudo cabe aqui dentro:
teu corpo era um espelho pensante do universo.
E olhavas para essa imagem, clarividente e comovida.

Foi do barco das flores, o teu rosto terreno,
e uns líquens de noite sem luzes
se enrolaram em tua cabeça de deusa rústica.

Mas puseram-te numa praia de onde os barcos saíam
para perderem-se.
Então, teus braços se abriram,
querendo levar-te mais longe:
porque eras a que salvava.
E ficaste com um pouco de asas.

Teus olhos, porém, mediram a flutuação do caminho.
Por isso, tua testa se vincou de alto a baixo,
e tuas pálpebras meigas
se cobriram de cinza.


VII
O crepúsculo é este sossego do céu
com suas nuvens paralelas
e uma última cor penetrando nas árvores
até os pássaros.

É esta curva dos pombos, rente aos telhados,
este cantar de galos e rolas, muito longe;
e, mais longe, o abrolhar de estrelas brancas,
ainda sem luz.

Mas não era só isto, o crepúsculo:
faltam os teus dois braços numa janela, sobre flores,
e em tuas mãos o teu rosto,
aprendendo com as nuvens a sorte das transformações.

Faltam teus olhos com ilhas, mares, viagens, povos,
tua boca, onde a passagem da vida
tinha deixado uma doçura triste,
que dispensava palavras.

Ah, falta o silêncio que estava entre nós,
e olhava a tarde, também.
Nele vivia o teu amor por mim,
obrigatório e secreto.
Igual à face da Natureza:
evidente, e sem definição.

Tudo em ti era uma ausência que se demorava:
uma despedida pronta a cumprir-se.

Sentindo-o, cobria minhas lágrimas com um riso doido.
Agora, tenho medo que não visses
o que havia por detrás dele.

Aqui está meu rosto verdadeiro,
defronte do crepúsculo que não alcançaste
Abre o túmulo, e olha-me:
dize-me qual de nós morreu mais.


VIII
Hoje! Hoje de sol e bruma,
com este silencioso calor sobre as pedras e as folhas!
Hoje! sem cigarras nem pássaros.
Gravemente. Altamente.
Com flores abafadas pelo caminho,
entre essas máscaras de bronze e mármore
eterno rosto da terra.

Hoje.

Quanto tempo passou entre a nossa mútua espera!
Tu, paciente e inutilizada,
cantando as horas que te desfaziam.
Meus olhos repetindo essas tuas horas heróicas,
no brotar e morrer desta última primavera
que te enfeitou.
Oh, a montanha de terra que agora vão tirando do teu peito!

Alegra-te, que aqui estou,
fiel, neste encontro,
como se do modo antigo vivesses
ou pudesses, com a minha chegada, reviver.

Alegra-te, que já se desprendem em tábuas que te fecharam,
como se desprendeu o corpo
em que aprendeste longamente a sofrer.

E, como o áspero ruído da pá cessou neste instante,
ouve o amplo e difuso rumor da cidade em que continuo,
-tu, que resides no tempo, no tempo unânime!

Ouve-o e relembra
não as estampas humanas: mas as cores do céu e da terra,
o calor do sol,
a aceitação das nuvens,
o grato deslizar das águas dóceis,
tudo o que amamos juntas.
Tudo em que me dispersei como te dispersaste.
E mais esse perfume de eternidade,
intocável e secreto,
que o giro do universo não perturba.

Apenas, não podemos correr, agora,
uma para a outra.

Não sofras, por não te poderes levantar
do abismo em que te reclinas:
não sofras, também,
se um pouco de choro se debruça nos meus olhos,
procurando-te.

Não te importes que escute cair,
no zinco desta humilde caixa,
teu crânio, tuas vértebras,
teus ossos todos, um por um...

Pés que caminhavam comigo,
mãos que me iam levando,
peito do antigo sono,
cabeça do olhar e do sorriso...

Não te importes. Não te importes...

Na verdade, tu vens como eu te queria inventar:
e de braço dado desceremos por entre pedras e flores.
Posso levar-te ao colo, também,
pois na verdade estás mais leve que uma criança.

- Tanta terra deixaste porém sobre o meu peito!
irás dizendo, sem queixa,
apenas como recordação.

E eu, como recordação, te direi:
- Pesaria tanto quanto o coração que tiveste,
o coração que herdei?

Ah, mas que palavras podem os vivos dizer aos mortos?

E hoje era o teu dia de festa
Meu presente é buscar-te:
Não para vires comigo:
para te encontrares com os que, antes de mim,
vieste buscar, outrora.
Com menos palavras, apenas.
Com o mesmo número de lágrimas.
Foi lição tua chorar pouco,
para sofrer mais.

Aprendi-a demasiadamente.
Aqui estamos, hoje.
Com este dia grave, de sol velado.
De calor silencioso.
Todas as estátuas ardendo.
As folhas, sem um tremor.

Não tens fala, nem movimento nem corpo.
E eu te reconheço.

Ah, mas a mim, a mim.
Quem sabe se me poderás reconhecer!